{"id":14289,"date":"2021-10-27T14:00:36","date_gmt":"2021-10-27T16:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/?p=14289"},"modified":"2021-10-27T09:36:14","modified_gmt":"2021-10-27T11:36:14","slug":"direito-etica-e-sentido-da-vida-miseria-materialismo-naturalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/2021\/10\/27\/direito-etica-e-sentido-da-vida-miseria-materialismo-naturalista\/","title":{"rendered":"Direito, \u00e9tica e sentido da vida: A mis\u00e9ria do materialismo naturalista"},"content":{"rendered":"<p>Sempre me pareceu de extrema pertin\u00eancia o ensinamento de Goffredo Telles J\u00fanior acerca do fato de que nossas experi\u00eancias de vida s\u00e3o muito limitadas e que o \u00fanico recurso que nos resta para a amplia\u00e7\u00e3o de nossas viv\u00eancias \u00e9 a sua busca na literatura dos grandes autores que s\u00e3o capazes de expressar sentimentos, situa\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias de forma profunda, tocante e o mais pr\u00f3ximas poss\u00edvel da realidade. Na medida em que o Direito (e tamb\u00e9m a \u00c9tica) busca disciplinar a \u201cconviv\u00eancia humana\u201d e promover o \u201centendimento universal\u201d, essa empreitada que consiste em ampliar nosso horizonte de conhecimento humano, \u00e9 imprescind\u00edvel. <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>O mesmo Telles J\u00fanior chama a aten\u00e7\u00e3o para uma quest\u00e3o transcendente a todas as demais na \u00e1rea da Filosofia do Direito. Aquela referente ao referencial antropol\u00f3gico do homem e da sua liberdade:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Se a liberdade do homem existe, nada, nas sociedades humanas, sobrelevaria em import\u00e2ncia o Direito, que seria uma <em>disciplina da liberdade<\/em>. Mas se esta n\u00e3o existe, o Direito passaria a ser uma fantasia v\u00e3. Num mundo sem liberdade, o Direito n\u00e3o vale que se lhe dedique um minuto de esfor\u00e7o e de pensamento. Bastava lembrar que o fim do Direito \u00e9 <em>conduzir<\/em> os homens em suas rela\u00e7\u00f5es sociais, e que para nada serviria se os homens j\u00e1 fossem necessariamente conduzidos pelas leis da natureza (grifos nos original). <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Sem o reconhecimento da liberdade do homem, de sua autonomia condicionada (mas n\u00e3o determinada), de sua transcend\u00eancia ao material, matem\u00e1tico, biol\u00f3gico, f\u00edsico, reca\u00edmos no fracasso iluminista em fundamentar a dignidade humana. Enveredamos por caminhos como os citados pelo mesmo Telles J\u00fanior ao apontar declara\u00e7\u00f5es como as de Moleschott (\u201co pensamento \u00e9 um movimento da mat\u00e9ria\u201d) ou de Vogt (\u201co c\u00e9rebro segrega o pensamento como os rins segregam a urina\u201d). <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 claro que existe quem afirme ser plenamente poss\u00edvel encontrar sentido na vida sem recurso a qualquer transcend\u00eancia. <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> A quest\u00e3o \u00e9 que esse sentido encontr\u00e1vel na mera iman\u00eancia n\u00e3o ir\u00e1 diferir do sentido que encontra na exist\u00eancia um porco, um c\u00e3o ou um gato. Acaso recorramos aos ensinamentos aristot\u00e9licos \u00e9 poss\u00edvel chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que, abrindo m\u00e3o da transcend\u00eancia, nosso sentido na vida n\u00e3o poderia jamais ultrapassar o \u00e2mbito \u201cvegetativo\u201d (de mera nutri\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o) e \u201csensitivo\u201d (de mera percep\u00e7\u00e3o, apetite e movimento). Atingir\u00edamos t\u00e3o somente a escala de evolu\u00e7\u00e3o dos vegetais e dos animais, sem poder jamais chegar \u00e0quilo que seria a subst\u00e2ncia da humanidade (\u201calma intelectiva\u201d). <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> E n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio do homem satisfazer-se e muito menos \u201cperfazer-se\u201d (sentir-se \u201cperfeito\u201d na acep\u00e7\u00e3o de \u201ccompletude\u201d) nessas limita\u00e7\u00f5es. At\u00e9 mesmo quem afirma poder encontrar sentido sem transcend\u00eancia, faz essa afirma\u00e7\u00e3o sem a viver em concreto, pois que para faz\u00ea-la lan\u00e7a m\u00e3o do exerc\u00edcio intelectual, embora desvirtuado e afastado da realidade e at\u00e9 da sua pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>O cientificismo materialista naturalista elege a linguagem da ci\u00eancia como a \u00fanica v\u00e1lida. Esse reducionismo intelectual nos comprime num mundo em que se pode \u201cdescrever\u201d alguns fen\u00f4menos, mas \u00e9 imposs\u00edvel \u201cexplicar\u201d qualquer coisa. Trata-se de um universo do \u201ccomo\u201d desprovido de \u201cporqu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Hawking alerta para o fato de que \u201ca abordagem habitual da ci\u00eancia\u201d consistente na constru\u00e7\u00e3o de \u201cmodelos matem\u00e1ticos, n\u00e3o consegue responder a perguntas sobre por que existe um Universo a ser descrito pelos modelos\u201d. <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o sem raz\u00e3o acreditava Weinberg que a ci\u00eancia n\u00e3o consegue explicar \u201ca exist\u00eancia de verdades morais\u201d, isso porque h\u00e1 \u201cuma defasagem l\u00f3gica entre o <em>\u00e9<\/em> cient\u00edfico e o <em>deve ser<\/em> \u00e9tico\u201d (grifos no original). <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Obviamente a mesma defasagem se encontra entre a ci\u00eancia normativa do Direito ligada ao \u201cdever ser\u201d e as ci\u00eancias da natureza orientadas pelo \u201cser\u201d.<\/p>\n<p>Na realidade qualquer manifesta\u00e7\u00e3o humana enclausurada numa clave materialista seria pass\u00edvel de mera descri\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica (v.g. observa\u00e7\u00e3o das \u00e1reas do c\u00e9rebro em atividade; percep\u00e7\u00e3o de sons e gestos; representa\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es entre signos da escrita e seus significados etc.), mas jamais poderia ser dotada de alguma relev\u00e2ncia significativa. Tudo o que falamos n\u00e3o passaria de emiss\u00f5es fon\u00e9ticas, de movimento do ar passando por nossas bocas (\u201cflactus vocis\u201d), tudo que escrevemos seriam garatujas sem import\u00e2ncia, desenhos de crian\u00e7a ignara, rabiscos ou manchas de chimpanz\u00e9s com as patas sujas de tinta. E, ademais, ao contr\u00e1rio do que dizia Buber, seria o homem apenas uma coisa entre outras coisas. <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um perigo terr\u00edvel que j\u00e1 era apontado por Hugo de S\u00e3o Vitor ao afirmar que quando o homem n\u00e3o tem a no\u00e7\u00e3o de que foi feito acima das outras coisas, acaba se julgando semelhante a qualquer outra coisa e se afastando da sapi\u00eancia que lhe permitiria conhecer-se a si mesmo. <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Enfim, abrem-se as portas das possibilidades tem\u00edveis da zoologiza\u00e7\u00e3o e da reifica\u00e7\u00e3o humanas.<\/p>\n<p>Quando um autor como Frankl defende em sua <em>logoterapia <\/em>a necessidade de busca de um sentido para a vida como constitutiva do homem, obviamente n\u00e3o se limita ao mero labor da subsist\u00eancia ou \u00e0 simples capacidade de percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. Pode-se afirmar, em linhas gerais, que a teoria de Frankl se embasa na no\u00e7\u00e3o de que o ser humano \u00e9 um ser em busca de sentido, <em>um ser que se transcende em dire\u00e7\u00e3o a algo fora de si, a um fim, um objetivo. Ora, um ser assim constitu\u00eddo n\u00e3o pode ser simplesmente determinado tal qual um animal, atuar t\u00e3o somente movido por instintos ou rea\u00e7\u00f5es, muito menos se reduzir a uma vida vegetativa. Um ser em busca de sentido \u00e9 sempre um ser livre.<\/em> Reconhecer essa condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a \u00fanica via para respeitar a humanidade do homem e trat\u00e1-lo de forma efetivamente humana. O ser do homem \u00e9 necessariamente voltado para perspectivas futuras, sua racionalidade \u00e9 marcada pela abstra\u00e7\u00e3o, chegando a uma necess\u00e1ria exist\u00eancia \u201csub specie aeternitatis\u201d ou sob o \u201cponto de vista da eternidade\u201d. <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> N\u00e3o se trata de apenas \u201csuportar a falta de sentido da vida\u201d, como afirmam alguns existencialistas, mas de \u201csuportar a incapacidade de compreender, em termos racionais, o fato de que a vida tem um sentido incondicional. O <em>logos<\/em> \u00e9 mais profundo que a l\u00f3gica\u201d (grifo no original). <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>Mais claramente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">A busca do indiv\u00edduo por um sentido \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sua vida, e n\u00e3o uma \u201cracionaliza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria\u201d de impulsos instintivos. Esse sentido \u00e9 exclusivo e espec\u00edfico, uma vez que precisa e pode ser cumprido somente por aquela determinada pessoa. Somente ent\u00e3o esse sentido assume uma import\u00e2ncia que satisfar\u00e1 a sua pr\u00f3pria <em>vontade<\/em> de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e valores s\u00e3o \u201cnada mais que mecanismos de defesa, forma\u00e7\u00f5es reativas e sublima\u00e7\u00f5es\u201d. Mas, pelo que toca a mim, eu n\u00e3o estaria disposto a viver em fun\u00e7\u00e3o dos meus \u201cmecanismos de defesa\u201d. Nem tampouco estaria pronto a morrer simplesmente por amor \u00e0s minhas \u201cforma\u00e7\u00f5es reativas\u201d. O que acontece, por\u00e9m, \u00e9 que o ser humano \u00e9 capaz de viver e at\u00e9 de morrer por seus ideais e valores\u201d! <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>Fora dessas concep\u00e7\u00f5es, encontrar sentido na vida sob o influxo de um materialismo reducionista \u00e9 elevar uma tautologia em fundamento existencial, \u00e9 afirmar que a vida tem um sentido porque \u00e9 vida e ent\u00e3o deve ser vivida, nada mais do que derivar o \u201cdever ser\u201d do \u201cser\u201d, o que n\u00e3o \u00e9 uma transposi\u00e7\u00e3o defens\u00e1vel e tem sido reconhecida como a chamada \u201cFal\u00e1cia Naturalista\u201d, apontada originalmente por G. E. Moore, em 1903, em seu \u201cPrincipia Ethica\u201d. <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Pontes de Miranda exaltava o aprendizado do homem em \u201cdiminuir em si o animal\u201d, \u201cem si e ao redor de si\u201d. <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> E concebia a distin\u00e7\u00e3o entre a animalidade e a humanidade como a capacidade da segunda de apontar para o futuro abstrato (convers\u00e3o da garra em dedo):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">O que n\u00f3s chamamos, de ordin\u00e1rio, \u201cfim\u201d do ato do animal n\u00e3o \u00e9 mais do que \u201cobjetivo\u201d, objeto que se deseja, que se pretende colher ou afastar. O fim mesmo, esse, \u00e9 abstrato. O animal n\u00e3o tem. Porque n\u00e3o representa como o homem e porque n\u00e3o abstrai como o homem, n\u00e3o pode viver nem prever at\u00e9 qualquer futuro abstrato, invis\u00edvel, inaud\u00edvel, inolfat\u00e1vel, insabori\u00e1vel, como o futuro \u2013 amanh\u00e3, o futuro pr\u00f3ximo ano, o futuro daqui a cinco, a vinte anos, a trinta. (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Concebido como feito de pontos \u2013 finitos, e n\u00e3o como linha, o <em>presente dos animais<\/em> (exclu\u00eddo o homem) n\u00e3o se liga ao futuro, se bem que tenha, atr\u00e1s de si, o passado, tal como se manifesta quando o animal reconhece algu\u00e9m ou alguma coisa. O <em>presente humano<\/em> confina com o passado e com o futuro, tecendo-se uma trama fina, compacta, com esse. (&#8230;).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">E esse enjaulamento no presente (<em>natural<\/em> para os animais), esse \u201cir at\u00e9 ali e s\u00f3 at\u00e9 ali\u201d na liga\u00e7\u00e3o dos fatos sucessivos e dos fatos de hoje a fatos futuros, \u00e9 t\u00e3o invenc\u00edvel, que a conduta adquirida pelo animal ensinado nunca se prolonga para al\u00e9m do domesticador ou dos seus substitutos (grifos no original). <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>Para ser coerente com o materialismo naturalista \u00e9 preciso admitir a falta de fundamento do \u201cser\u201d, inclusive do homem, inclusive de si mesmo. Coerente com isso, ao menos em teoria, em seu niilismo, \u00e9 Emil Cioran ao afirmar em um livro cujo t\u00edtulo (\u201cDo inconveniente de ter nascido\u201d) \u00e9 bastante eloquente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">Que tudo seja desprovido de consist\u00eancia, de fundamento, de justifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo de que estou habitualmente t\u00e3o convencido que aquele que ousar contradizer-me, mesmo que se trate do homem que mais estimo, me parecer\u00e1 um charlat\u00e3o ou um idiota. <a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Menos convencido de ter uma resposta pronta e incontrast\u00e1vel, Camus prefere indicar uma pergunta como a \u00fanica realmente relevante sob o ponto de vista filos\u00f3fico. Para o autor, a \u00fanica quest\u00e3o importante \u00e9 a do suic\u00eddio, porque versa sobre ser a vida digna de ser vivida ou n\u00e3o. <a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p>Retomando a ideia com a qual se iniciou este texto, referente \u00e0 busca da experi\u00eancia nas grandes obras liter\u00e1rias, parece oportuno fazer esse exerc\u00edcio a respeito da mis\u00e9ria do materialismo. Isso porque ou a pessoa n\u00e3o se concebe numa vis\u00e3o estritamente materialista e, portanto, n\u00e3o vive essa experi\u00eancia, ou at\u00e9 se concebe, mas n\u00e3o assume, com coer\u00eancia e at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, inclusive pr\u00e1ticas, essa sua posi\u00e7\u00e3o. Na verdade, n\u00e3o se encontram exemplos de indiv\u00edduos (ao menos vivos) que realmente levem seu materialismo \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Trata-se, portanto, de uma experi\u00eancia que somente se poder\u00e1 encontrar no \u00e2mago da sensibilidade e do talento dos grandes escritores.<\/p>\n<p>Em seu conto \u201cA Formiga El\u00e9trica\u201d (1969), Dick nos apresenta um narrador que descobre acidentalmente ser um androide. Ele fica muito impressionado com a descoberta de sua natureza. Conserta a si mesmo e se programa para uma vida de apenas mais algumas horas muito intensas, cometendo em seguida suic\u00eddio cortando sua \u201cfita de constru\u00e7\u00e3o do suprimento da realidade\u201d. Confrontado com a monstruosidade materialista o androide racional n\u00e3o \u00e9 capaz de suport\u00e1-la. <a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no conto de E. T. A. Hoffman, que chegou a dar origem ao que se chamou de \u201cComplexo de Coppelia\u201d, o personagem Nathanael perde a sanidade quando fica sabendo que uma boneca \u2013 dan\u00e7arina de nome Coppelia, que ele acreditava ser uma mulher verdadeira, de carne e osso, n\u00e3o passava de um aparato rob\u00f3tico. E mais, Coppelia o adverte que haveria a possibilidade de que ele mesmo, Nathanael, fosse tamb\u00e9m um mero rob\u00f4. Ent\u00e3o Nathanael sente que sua realidade e identidade foram destru\u00eddas e, movido pelo desespero, se mata, atirando-se do alto de uma torre. Novamente, o confronto da teratologia mecanicista materialista com a racionalidade simplesmente destr\u00f3i qualquer perspectiva e encaminha o homem (homem?) ao suic\u00eddio. <a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>Essas valiosas pe\u00e7as liter\u00e1rias retratam com maestria a nulidade, a falta absoluta de sentido da vida de um ser racional como s\u00e3o os seres humanos, acaso reduzidos a meros mecanismos, \u201chomo ex machina\u201d. Em \u201cOs Dem\u00f4nios\u201d, Dostoi\u00e9vski p\u00f5e na boca de um dos personagens a proclama\u00e7\u00e3o de um \u201cdireito \u00e0 desonra\u201d. <a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> Ao submeterem-se ao reducionismo mecanicista materialista naturalista, os seres humanos proclamam o \u201cdireito \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 induvidoso que juntamente com essa falta de sentido do homem viria, por consequ\u00eancia direta, a total falta de sentido de suas obras, dentre elas a ci\u00eancia normativa do Direito e o estudo da \u00c9tica, bem como a ere\u00e7\u00e3o das regras morais e legais. Sobre a mis\u00e9ria do materialismo sistem\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir absolutamente nada de relevante, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a, moral, bem, mal, beleza, crime, humanidade, n\u00e3o h\u00e1 fundamento m\u00ednimo para nada. H\u00e1 apenas um \u201cser\u201d ontologicamente diverso do \u201cnada\u201d material, mas cuja contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel ou pelo menos ilus\u00f3ria na falta do esp\u00edrito humano reduzido \u00e0 mat\u00e9ria, rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e mecanismos biol\u00f3gicos. E n\u00f3s, humanos, nos tornamos os indigentes do universo, condenados a uma racionalidade insana, doentia e evanescente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>BLACKBURN, Simon. <em>Dicion\u00e1rio Oxford de Filosofia<\/em>. Trad. Desid\u00e9rio Murcho, et al. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.<\/p>\n<p>BUBER, Martin.\u00a0<em>Eu e Tu<\/em>. Trad. Newton Aquiles Von Zuben. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Moraes, 1977.<\/p>\n<p>CAMUS, Albert. O mito de S\u00edsifo. Trad. Mauro Gama. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.<\/p>\n<p>CIORAN, Emil M.\u00a0<em>Do Inconveniente de ter nascido<\/em>. Trad. Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010.<\/p>\n<p>DICK, Philip K. <em>A Formiga El\u00e9trica<\/em>. Trad. M. Martins. Scribd E \u2013 Book. Dispon\u00edvel em https:\/\/pt.scribd.com\/doc\/278979640\/A-Formiga-Eletrica-Philip-K-Dick , acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p>DOSTOI\u00c9VSKI, Fiodor. <em>Os Dem\u00f4nios. <\/em>Trad. Nat\u00e1lia Nunes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.<\/p>\n<p>FRANKL, Viktor E. <em>Em Busca de Sentido<\/em>. Trad. Valter O. Schullup e Carlos C. Aveline. 2\u00aa. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1991.<\/p>\n<p>HAWIKING, Stephen W. <em>Uma Breve Hist\u00f3ria do Tempo<\/em>. Trad. Ribeiro da Fonseca. 3\u00aa. ed. Lisboa: Gradiva, 1994.<\/p>\n<p>HOFFMAN, E. T. A. O Homem de Areia. Trad. Ary Quintella. Ebook. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 1986. Dispon\u00edvel em https:\/\/pt.scribd.com\/read\/477950092\/O-Homem-da-areia, acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p>HOLT, Jim. Por que o Mundo Existe? Trad. Cl\u00f3vis Marques. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2013.<\/p>\n<p>MIRANDA, Pontes de. <em>Garra, M\u00e3o e Dedo<\/em>. Campinas: Bookseller, 2002.<\/p>\n<p>POND\u00c9, Luiz Felipe. Contraponto. Brasil Paralelo. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GTVZH8aJMfc , acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p>REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia \u2013 Filosofia pag\u00e3 antiga<\/em>. Volume 1. Trad. Ivo Storniolo, S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003.<\/p>\n<p>S\u00c3O VITOR, Hugo de. <em>Didascalicon \u2013 A Arte de Ler. <\/em>Trad. Tiago Tondinelli. Campinas: Vide Editorial, 2015.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p>TELLES J\u00daNIOR, Goffredo. <em>A Folha Dobrada<\/em>. 2\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> TELLES J\u00daNIOR, Goffredo. <em>A Folha Dobrada<\/em>. 2\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 352.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Op. Cit., p. 283. \u00a0Parece que a mesma conclus\u00e3o vale para a disciplina da \u00c9tica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Apud, Op. Cit., p. 284.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> POND\u00c9, Luiz Felipe. Contraponto. Brasil Paralelo. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GTVZH8aJMfc , acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia \u2013 Filosofia pag\u00e3 antiga<\/em>. Volume 1. Trad. Ivo Storniolo, S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003, p. 212.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> HAWIKING, Stephen W. <em>Uma Breve Hist\u00f3ria do Tempo<\/em>. Trad. Ribeiro da Fonseca. 3\u00aa. ed. Lisboa: Gradiva, 1994, p. 132.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> WEINBERG, Steven, apud, HOLT, Jim. Por que o Mundo Existe? Trad. Cl\u00f3vis Marques. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2013, p. 160.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> BUBER, Martin.\u00a0<em>Eu e Tu<\/em>. Trad. Newton Aquiles Von Zuben. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Moraes, 1977, p. 9. Dizia com acerto Martin Buber: \u201co homem n\u00e3o \u00e9 uma coisa entre coisas ou formado por coisas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> S\u00c3O VITOR, Hugo de. <em>Didascalicon \u2013 A Arte de Ler. <\/em>Trad. Tiago Tondinelli. Campinas: Vide Editorial, 2015, p. 13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> FRANKL, Viktor E. <em>Em Busca de Sentido<\/em>. Trad. Valter O. Schullup e Carlos C. Aveline. 2\u00aa. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1991, p. 73.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Op. Cit., p. 105.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Op. Cit., p. 92.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> BLACKBURN, Simon. <em>Dicion\u00e1rio Oxford de Filosofia<\/em>. Trad. Desid\u00e9rio Murcho, et al. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 142.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> MIRANDA, Pontes de. <em>Garra, M\u00e3o e Dedo<\/em>. Campinas: Bookseller, 2002, p. 172.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Op. Cit., p. 44 \u2013 46.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a>\u00a0CIORAN, Emil M.\u00a0<em>Do Inconveniente de ter nascido<\/em>. Trad. Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010, p. 10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> CAMUS, Albert. O mito de S\u00edsifo. Trad. Mauro Gama. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989, p. 23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Cf. DICK, Philip K. <em>A Formiga El\u00e9trica<\/em>. Trad. M. Martins. Scribd E \u2013 Book. Dispon\u00edvel em https:\/\/pt.scribd.com\/doc\/278979640\/A-Formiga-Eletrica-Philip-K-Dick , acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Cf. HOFFMAN, E. T. A. O Homem de Areia. Trad. Ary Quintella. Ebook. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 1986. Dispon\u00edvel em https:\/\/pt.scribd.com\/read\/477950092\/O-Homem-da-areia, acesso em 25.10.2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> DOSTOI\u00c9VSKI, Fiodor. <em>Os Dem\u00f4nios. <\/em>Trad. Nat\u00e1lia Nunes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 1.100.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me pareceu de extrema pertin\u00eancia o ensinamento de Goffredo Telles J\u00fanior acerca do fato de que nossas experi\u00eancias de vida s\u00e3o muito limitadas e que o \u00fanico recurso que nos resta para a amplia\u00e7\u00e3o de nossas viv\u00eancias \u00e9 a sua busca na literatura dos grandes autores que s\u00e3o capazes de expressar sentimentos, situa\u00e7\u00f5es e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":9088,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.8.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ 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