{"id":24496,"date":"2026-09-16T12:00:00","date_gmt":"2026-09-16T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/?p=24496"},"modified":"2026-09-14T09:03:40","modified_gmt":"2026-09-14T12:03:40","slug":"quando-o-cibercrime-nao-desaparece-repressao-deslocamento-e-adaptacao-das-fraudes-digitais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/2026\/09\/16\/quando-o-cibercrime-nao-desaparece-repressao-deslocamento-e-adaptacao-das-fraudes-digitais\/","title":{"rendered":"Quando o cibercrime n\u00e3o desaparece: repress\u00e3o, deslocamento e adapta\u00e7\u00e3o das fraudes digitais"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma opera\u00e7\u00e3o policial bloqueia uma estrutura utilizada por fraudadores, contas s\u00e3o encerradas, dom\u00ednios saem do ar, valores s\u00e3o congelados e determinados grupos deixam de atuar no local em que haviam sido identificados. A interven\u00e7\u00e3o pode ser considerada bem-sucedida. Mas uma quest\u00e3o criminol\u00f3gica permanece: o crime foi efetivamente reduzido ou apenas mudou de lugar, plataforma, t\u00e9cnica, v\u00edtima ou jurisdi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 antigo. Desde pelo menos a d\u00e9cada de 1970, a criminologia discute se interven\u00e7\u00f5es destinadas a restringir oportunidades criminosas produzem redu\u00e7\u00e3o efetiva do crime ou simplesmente seu deslocamento. Reppetto (1976) demonstrou que impedir a pr\u00e1tica de determinado delito em uma situa\u00e7\u00e3o pode produzir diferentes formas de adapta\u00e7\u00e3o, como mudan\u00e7as espaciais, temporais, de alvo ou de modus operandi. A hip\u00f3tese do deslocamento tornou-se, por essa raz\u00e3o, uma das obje\u00e7\u00f5es tradicionais dirigidas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o situacional do crime.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa acumulada, entretanto, tornou essa conclus\u00e3o menos simples. Ao revisar 102 avalia\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o situacional, Guerette e Bowers (2009) identificaram deslocamento em 26% das observa\u00e7\u00f5es analisadas e, em propor\u00e7\u00e3o praticamente id\u00eantica, 27%, o fen\u00f4meno oposto, denominado difus\u00e3o de benef\u00edcios, pelo qual os efeitos preventivos ultrapassam o espa\u00e7o ou situa\u00e7\u00e3o diretamente submetidos \u00e0 interven\u00e7\u00e3o. Em estudos nos quais foi poss\u00edvel avaliar o resultado global da medida, o deslocamento, quando existente, geralmente n\u00e3o eliminava os benef\u00edcios produzidos. Johnson, Guerette e Bowers (2014) chegaram a conclus\u00e3o semelhante: o deslocamento \u00e9 uma possibilidade real, mas est\u00e1 longe de constituir consequ\u00eancia autom\u00e1tica de qualquer interven\u00e7\u00e3o policial ou preventiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o ganha, por\u00e9m, outra dimens\u00e3o quando o ambiente analisado deixa de ser uma rua, um bairro ou determinado ponto comercial e passa a ser o espa\u00e7o digital. \u00c9 justamente esse problema que You Zhou, Chad Whelan, Jia Qu e Mark Wood enfrentam no artigo \u201cUncovering Cybercrime Displacement Decision-Making: A Computational Analysis of Telegram Scam Posts\u201d, publicado em agosto de 2026 no Justice Quarterly. Os autores perguntam n\u00e3o apenas se a repress\u00e3o ao cibercrime produz deslocamento, mas como os pr\u00f3prios ofensores percebem a press\u00e3o policial e discutem alternativas quando suas atividades s\u00e3o amea\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva te\u00f3rica escolhida remonta ao modelo da escolha racional formulado por Cornish e Clarke (1986). A ideia n\u00e3o consiste em imaginar o criminoso como agente perfeitamente racional, capaz de calcular todas as consequ\u00eancias de suas decis\u00f5es. Trata-se de reconhecer que a pr\u00e1tica delitiva tamb\u00e9m envolve decis\u00f5es condicionadas por oportunidades, custos, riscos, recompensas, conhecimentos e limita\u00e7\u00f5es concretas. O ofensor decide dentro de determinada estrutura de possibilidades. Alterada essa estrutura, pode desistir, persistir ou procurar uma alternativa. \u00c9 justamente nesse \u00faltimo movimento que aparece o deslocamento.<\/p>\n\n\n\n<p>No cibercrime, entretanto, algumas das limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do espa\u00e7o f\u00edsico diminuem substancialmente. Um assaltante que deixa determinado territ\u00f3rio precisa conhecer outro local, deslocar-se fisicamente, reconhecer novas v\u00edtimas e expor-se a riscos desconhecidos. Um grupo que pratica fraudes digitais pode, em certas condi\u00e7\u00f5es, alterar o dom\u00ednio utilizado, migrar de plataforma, substituir contas, modificar a narrativa do golpe, recrutar novos intermedi\u00e1rios ou direcionar suas mensagens a v\u00edtimas situadas em outro pa\u00eds. N\u00e3o significa que essa adapta\u00e7\u00e3o seja gratuita ou ilimitada, mas o repert\u00f3rio de alternativas \u00e9 potencialmente mais amplo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que o trabalho de Zhou et al. (2026) oferece sua contribui\u00e7\u00e3o mais interessante.<\/p>\n\n\n\n<p>O que dizem 192 mil mensagens de comunidades de fraudadores<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores analisaram comunidades de l\u00edngua chinesa no Telegram associadas \u00e0 pr\u00e1tica de fraudes digitais na \u00c1sia. O banco inicial continha mais de 517 mil mensagens provenientes de canais e grupos identificados pelos pesquisadores. Depois de sucessivas etapas de filtragem, destinadas a excluir mensagens autom\u00e1ticas, conte\u00fados muito curtos, spam e duplica\u00e7\u00f5es, restaram 192.627 postagens consideradas v\u00e1lidas, provenientes de 21 comunidades e abrangendo principalmente o per\u00edodo entre setembro de 2023 e fevereiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>O desenho metodol\u00f3gico \u00e9 particularmente interessante porque os pesquisadores n\u00e3o procuraram apenas contar crimes ou opera\u00e7\u00f5es policiais. Utilizaram an\u00e1lise computacional do discurso para identificar quatro conjuntos de manifesta\u00e7\u00f5es: refer\u00eancias \u00e0 atua\u00e7\u00e3o policial, ao deslocamento das atividades, \u00e0s oportunidades criminosas e \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es dos ofensores. Os dicion\u00e1rios de termos empregados foram submetidos a procedimentos de valida\u00e7\u00e3o humana e, posteriormente, as s\u00e9ries temporais foram analisadas por meio de correla\u00e7\u00f5es defasadas e modelos de regress\u00e3o moderada.<\/p>\n\n\n\n<p>A hip\u00f3tese central era relativamente intuitiva: o aumento da percep\u00e7\u00e3o de intensidade policial deveria ser seguido por maior inclina\u00e7\u00e3o ao deslocamento. Mas os autores acrescentaram duas vari\u00e1veis decisivas. A rea\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia dependeria tamb\u00e9m das oportunidades alternativas percebidas pelos ofensores e da intensidade de suas motiva\u00e7\u00f5es para continuar praticando as fraudes.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado confirmou a primeira hip\u00f3tese. O aumento do discurso relacionado \u00e0 atua\u00e7\u00e3o policial em determinada semana esteve positiva e significativamente associado ao aumento do discurso sobre deslocamento na semana seguinte, com correla\u00e7\u00e3o de r = 0,36. O modelo mais completo, que incorporou oportunidades, motiva\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es entre essas vari\u00e1veis, explicou aproximadamente 27,2% da varia\u00e7\u00e3o semanal observada no discurso de deslocamento (Zhou et al., 2026).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os resultados tornam-se mais interessantes quando se observam as vari\u00e1veis moderadoras. A motiva\u00e7\u00e3o intensificou a associa\u00e7\u00e3o entre press\u00e3o policial e deslocamento. Em outras palavras, quando o discurso indicava maior disposi\u00e7\u00e3o para persistir na atividade criminosa, maior press\u00e3o policial tendia a ser seguida de maior discuss\u00e3o sobre alternativas de deslocamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A oportunidade produziu rela\u00e7\u00e3o mais complexa. Quando o discurso sobre oportunidades criminosas j\u00e1 era elevado, diminu\u00eda o efeito marginal da press\u00e3o policial sobre o discurso de deslocamento. Isso n\u00e3o significa que oportunidades abundantes impe\u00e7am a adapta\u00e7\u00e3o. Uma interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 justamente a contr\u00e1ria: em ambientes nos quais alternativas criminosas j\u00e1 est\u00e3o estruturalmente dispon\u00edveis, a atua\u00e7\u00e3o policial deixa de ser o \u00fanico elemento capaz de explicar por que os ofensores discutem mudan\u00e7as de estrat\u00e9gia. O pr\u00f3prio ecossistema digital mant\u00e9m um repert\u00f3rio permanente de alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores s\u00e3o cuidadosos nesse ponto. A an\u00e1lise n\u00e3o demonstra que os criminosos efetivamente realizaram cada deslocamento discutido. O objeto s\u00e3o discursos produzidos nas comunidades, portanto manifesta\u00e7\u00f5es cognitivas e comunicacionais relacionadas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, das oportunidades e das poss\u00edveis adapta\u00e7\u00f5es. O estudo identifica um processo de delibera\u00e7\u00e3o que antecede potencialmente a a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o em si.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica \u00e9 fundamental. Mensagens no Telegram n\u00e3o equivalem a registros de ocorr\u00eancias, apreens\u00f5es, transfer\u00eancias financeiras ou provas de mudan\u00e7a territorial. A pr\u00f3pria pesquisa reconhece outras limita\u00e7\u00f5es: n\u00e3o disp\u00f5e de uma s\u00e9rie externa independente de opera\u00e7\u00f5es policiais para confrontar cada aumento do discurso sobre policiamento; n\u00e3o pode excluir inteiramente causalidade reversa ou eventos externos afetando simultaneamente diferentes vari\u00e1veis; e trabalha com comunidades de l\u00edngua chinesa ligadas a uma modalidade espec\u00edfica de criminalidade. Seus resultados, portanto, n\u00e3o podem ser automaticamente generalizados para ransomware, invas\u00f5es de sistemas, abuso sexual infantil online ou todas as modalidades de fraude digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o diminui sua contribui\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, talvez o maior m\u00e9rito do estudo esteja justamente em abrir a \u201ccaixa-preta\u201d existente entre a interven\u00e7\u00e3o estatal e o comportamento criminal posterior. A criminologia tradicional do deslocamento costuma observar o come\u00e7o e o fim do processo: uma interven\u00e7\u00e3o ocorreu em determinado local e, posteriormente, os delitos diminu\u00edram ali e aumentaram, ou n\u00e3o, em outro lugar. Zhou et al. (2026) tentam observar o momento intermedi\u00e1rio, quando os pr\u00f3prios agentes discutem riscos, alternativas e formas de continuar operando.<\/p>\n\n\n\n<p>Do deslocamento territorial \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o criminal<\/p>\n\n\n\n<p>A relev\u00e2ncia dessa discuss\u00e3o torna-se ainda mais evidente diante da transforma\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea das fraudes digitais em atividade transnacional organizada. Estudos recentes descrevem grandes estruturas instaladas no Sudeste Asi\u00e1tico, algumas delas associadas a redes de tr\u00e1fico de pessoas, lavagem de dinheiro, obten\u00e7\u00e3o il\u00edcita de dados e explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores coagidos a praticar fraudes em larga escala. Akartuna e Manning (2026), analisando o ecossistema de scam compounds em Myanmar, identificaram capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s interven\u00e7\u00f5es estatais. Em trabalho anterior, Zhou (2025), a partir de entrevistas com 21 policiais chineses, j\u00e1 havia encontrado refer\u00eancias \u00e0s diferentes modalidades de deslocamento decorrentes da repress\u00e3o \u00e0s fraudes digitais, inclusive mudan\u00e7as territoriais e de v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria China oferece um exemplo particularmente elucidativo. A cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de estruturas especializadas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0s fraudes aumentou riscos, dificultou determinadas opera\u00e7\u00f5es, ampliou interven\u00e7\u00f5es sobre v\u00edtimas potenciais e produziu mecanismos de bloqueio. Pesquisa posterior de Zhou e Hendy (2026), novamente baseada em entrevistas com policiais chineses, concluiu que essas medidas apresentavam resultados preventivos, mas os pr\u00f3prios profissionais reconheciam efeitos colaterais, entre eles o deslocamento de parte das organiza\u00e7\u00f5es para outros territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo permite revisar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de deslocamento criminal. No espa\u00e7o f\u00edsico, fala-se tradicionalmente em deslocamento territorial, temporal, de alvo ou de modalidade delitiva. Na criminalidade digital, essas categorias podem ocorrer simultaneamente. Uma mesma organiza\u00e7\u00e3o pode deslocar infraestrutura para outro pa\u00eds, mudar a plataforma de comunica\u00e7\u00e3o, alterar o meio de pagamento, substituir a engenharia social utilizada e passar a procurar outro perfil de v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>A tecnologia n\u00e3o elimina as restri\u00e7\u00f5es da atividade criminosa. Ela modifica sua arquitetura.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias para a avalia\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia policial. O encerramento de determinada infraestrutura pode representar sucesso operacional real e, simultaneamente, produzir incentivos para que integrantes do mercado il\u00edcito reorganizem suas atividades. Uma m\u00e9trica que contabilize apenas contas bloqueadas, sites retirados do ar, grupos encerrados ou pris\u00f5es realizadas capta uma parte importante do fen\u00f4meno, mas n\u00e3o necessariamente informa o que ocorreu com o mercado criminal subsequente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta criminol\u00f3gica relevante, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente se determinada opera\u00e7\u00e3o \u201cfuncionou\u201d. \u00c9 preciso saber o que aconteceu depois.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema brasileiro<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o \u00e9 particularmente pertinente ao Brasil. A digitaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas criou benef\u00edcios extraordin\u00e1rios, mas tamb\u00e9m expandiu a superf\u00edcie sobre a qual se estruturam oportunidades para fraudes. O Pix \u00e9 talvez a express\u00e3o mais evidente desse processo: segundo o Banco Central, mais de 170 milh\u00f5es de pessoas f\u00edsicas j\u00e1 utilizaram o sistema e, apenas em janeiro de 2026, foram realizadas mais de sete bilh\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es. Esses n\u00fameros demonstram a extraordin\u00e1ria incorpora\u00e7\u00e3o dos pagamentos instant\u00e2neos \u00e0 vida cotidiana brasileira. N\u00e3o demonstram, evidentemente, qualquer causalidade entre Pix e criminalidade, mas ajudam a compreender a dimens\u00e3o do ambiente em que fraudadores procuram oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>As estat\u00edsticas criminais apontam movimento compat\u00edvel com essa transforma\u00e7\u00e3o. O Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica registrou 2.166.552 ocorr\u00eancias de estelionato em 2024, crescimento de 7,8% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Na s\u00e9rie espec\u00edfica de estelionato por meio eletr\u00f4nico, os registros informados passaram de 222.765 para 281.206, aumento de 17%. Os dados devem ser interpretados com cautela, porque persistem diferen\u00e7as de registro e lacunas entre as unidades da Federa\u00e7\u00e3o, inclusive aus\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de fraude eletr\u00f4nica para S\u00e3o Paulo naquela tabela. Ainda assim, o crescimento registrado \u00e9 suficiente para demonstrar a centralidade assumida pelas fraudes no panorama contempor\u00e2neo dos crimes patrimoniais brasileiros (F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2025).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade exige que o Brasil n\u00e3o pense a repress\u00e3o \u00e0s fraudes digitais apenas sob a l\u00f3gica do evento individual. Cada boletim de ocorr\u00eancia cont\u00e9m uma v\u00edtima e um preju\u00edzo que precisam ser investigados, mas milhares de eventos aparentemente independentes podem integrar estruturas comuns de contas intermedi\u00e1rias, linhas telef\u00f4nicas, perfis, dispositivos, dom\u00ednios, carteiras digitais, fornecedores de dados e operadores especializados.<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva do deslocamento acrescenta outra dimens\u00e3o. Se determinada medida dificulta uma modalidade espec\u00edfica de fraude, \u00e9 necess\u00e1rio acompanhar se o dano desaparece ou reaparece sob outra forma. O bloqueio de uma conta pode levar \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de outra institui\u00e7\u00e3o; o encerramento de um perfil pode ser seguido pela abertura de dezenas de novos perfis; a conscientiza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas sobre determinado roteiro pode induzir a substitui\u00e7\u00e3o da narrativa; maior controle em um pa\u00eds pode transferir parte da estrutura operacional para outra jurisdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso altera a pr\u00f3pria unidade de an\u00e1lise da investiga\u00e7\u00e3o criminal. Em vez de examinar apenas o fato consumado, torna-se necess\u00e1rio compreender mercados, infraestruturas e cadeias de oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Reprimir n\u00e3o basta quando o mercado permanece dispon\u00edvel<\/p>\n\n\n\n<p>A principal implica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do artigo de Zhou et al. (2026) \u00e9 que aumentar a intensidade do policiamento sobre um ponto espec\u00edfico do ecossistema n\u00e3o garante, isoladamente, que a atividade desapare\u00e7a. Quando oportunidades alternativas permanecem acess\u00edveis e a motiva\u00e7\u00e3o dos ofensores \u00e9 suficientemente forte, a resposta pode assumir a forma de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A conclus\u00e3o n\u00e3o recomenda menor repress\u00e3o. Esse seria um equ\u00edvoco importante. A literatura cl\u00e1ssica mostra que o deslocamento n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e que interven\u00e7\u00f5es situacionais podem produzir redu\u00e7\u00e3o l\u00edquida do crime e difus\u00e3o de benef\u00edcios (Guerette; Bowers, 2009; Johnson; Guerette; Bowers, 2014). A quest\u00e3o \u00e9 outra: no ambiente digital, pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o precisam antecipar rotas de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso exige uma estrat\u00e9gia que alcance simultaneamente infraestrutura, oportunidade e capacidade organizacional. Pol\u00edcia, institui\u00e7\u00f5es financeiras, empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es, plataformas digitais, provedores, exchanges e autoridades estrangeiras passam a integrar o mesmo problema preventivo. A retirada de um instrumento utilizado para fraudar precisa ser acompanhada do monitoramento das alternativas prov\u00e1veis. A recupera\u00e7\u00e3o de ativos n\u00e3o pode ser dissociada da identifica\u00e7\u00e3o das redes financeiras que permitem sua circula\u00e7\u00e3o. E investiga\u00e7\u00f5es transnacionais dependem de mecanismos capazes de preservar e compartilhar rapidamente evid\u00eancias eletr\u00f4nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em an\u00e1lise anterior sobre as Conven\u00e7\u00f5es de Budapeste e de Han\u00f3i, Siena (2026) j\u00e1 destacava que a natureza transnacional dos cibercrimes desafia modelos de persecu\u00e7\u00e3o estruturados segundo fronteiras territoriais, tornando indispens\u00e1veis mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o internacional, harmoniza\u00e7\u00e3o normativa e obten\u00e7\u00e3o c\u00e9lere de evid\u00eancias eletr\u00f4nicas. O estudo de Zhou et al. acrescenta uma raz\u00e3o criminol\u00f3gica a essa necessidade: fronteiras jur\u00eddicas e institucionais n\u00e3o s\u00e3o apenas obst\u00e1culos enfrentados pelo Estado; podem tamb\u00e9m constituir oportunidades percebidas por organiza\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aqui uma mudan\u00e7a relevante de perspectiva. A criminalidade digital n\u00e3o deveria ser concebida apenas como crime tradicional praticado mediante computador ou telefone. A infraestrutura digital modifica disponibilidade de alvos, velocidade, escala, dist\u00e2ncia entre autor e v\u00edtima, organiza\u00e7\u00e3o do trabalho criminoso e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Por isso, teorias criminol\u00f3gicas formuladas para o espa\u00e7o f\u00edsico continuam \u00fateis, mas precisam ser testadas diante dessas novas propriedades.<\/p>\n\n\n\n<p>O deslocamento \u00e9 um excelente exemplo. A velha pergunta permanece atual: o que faz o criminoso quando uma oportunidade \u00e9 bloqueada? O que mudou foi o universo de respostas dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Zhou, Whelan, Qu e Wood n\u00e3o demonstraram que toda repress\u00e3o ao cibercrime transfere inevitavelmente a atividade para outro lugar. Demonstraram algo mais interessante: nas comunidades analisadas, maior percep\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o policial esteve associada, em curto intervalo temporal, a maior discuss\u00e3o sobre deslocamento, e essa rela\u00e7\u00e3o variou conforme oportunidades e motiva\u00e7\u00f5es presentes no ambiente criminal. A repress\u00e3o entra, portanto, no c\u00e1lculo dos ofensores, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica vari\u00e1vel desse c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira, talvez essa seja a principal li\u00e7\u00e3o. O \u00eaxito de uma pol\u00edtica contra fraudes digitais n\u00e3o pode ser medido apenas pelo que deixou de acontecer no ponto em que o Estado interveio. \u00c9 preciso procurar o crime tamb\u00e9m para onde ele foi.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>AKARTUNA, Eray Arda; MANNING, Matthew G. An artificial intelligence-driven temporal network analysis of Myanmar\u2019s cyber scam ecosystem. Asian Journal of Criminology, v. 21, n. 1, art. 10, 2026. DOI: 10.1007\/s11417-025-09474-0.<\/p>\n\n\n\n<p>BANCO CENTRAL DO BRASIL. Pix em n\u00fameros. Bras\u00edlia, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bcb.gov.br\/estabilidadefinanceira\/estatisticaspix. Acesso em: 12 set. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>CORNISH, Derek B.; CLARKE, Ronald V. G. (org.). The reasoning criminal: rational choice perspectives on offending. New York: Springer-Verlag, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 19\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. S\u00e3o Paulo: F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>GUERETTE, Rob T.; BOWERS, Kate J. Assessing the extent of crime displacement and diffusion of benefits: a review of situational crime prevention evaluations. Criminology, v. 47, n. 4, p. 1331-1368, 2009. DOI: 10.1111\/j.1745-9125.2009.00177.x.<\/p>\n\n\n\n<p>JOHNSON, Shane D.; GUERETTE, Rob T.; BOWERS, Kate. Crime displacement: what we know, what we don\u2019t know, and what it means for crime reduction. Journal of Experimental Criminology, v. 10, p. 549-571, 2014. DOI: 10.1007\/s11292-014-9209-4.<\/p>\n\n\n\n<p>REPPETTO, Thomas A. Crime prevention and the displacement phenomenon. Crime &amp; Delinquency, v. 22, n. 2, p. 166-177, 1976. DOI: 10.1177\/001112877602200204.<\/p>\n\n\n\n<p>SIENA, David Pimentel Barbosa de. Da Conven\u00e7\u00e3o de Budapeste \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o de Han\u00f3i: desafios para a persecu\u00e7\u00e3o penal dos cibercrimes. Consultor Jur\u00eddico, S\u00e3o Paulo, 1 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>ZHOU, You. Policing cyber fraud in China: challenges, responses, and crime displacement. 2025. Tese (Doutorado em Criminologia) \u2013 Monash University, Melbourne, 2025. DOI: 10.26180\/29967958.v1.<\/p>\n\n\n\n<p>ZHOU, You; HENDY, Ross. Situational crime prevention against cyberfraud: a case study of China\u2019s anti-fraud centres. International Journal of Police Science &amp; Management, v. 28, n. 2, p. 65-81, 2026. DOI: 10.1177\/14613557261447757.<\/p>\n\n\n\n<p>ZHOU, You; WHELAN, Chad; QU, Jia; WOOD, Mark. Uncovering cybercrime displacement decision-making: a computational analysis of Telegram scam posts. Justice Quarterly, 2026. Publicado online em 6 ago. 2026. DOI: 10.1080\/07418825.2026.2712833.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma opera\u00e7\u00e3o policial bloqueia uma estrutura utilizada por fraudadores, contas s\u00e3o encerradas, dom\u00ednios saem do ar, valores s\u00e3o congelados e determinados grupos deixam de atuar no local em que haviam sido identificados. A interven\u00e7\u00e3o pode ser considerada bem-sucedida. 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Atualmente \u00c9 Delegado De Pol\u00edcia Do Estado De S\u00e3o Paulo, Professor De Criminologia Da Academia De Pol\u00edcia ''''Dr. Coriolano Nogueira Cobra'''', Professor De Direito Penal, Coordenador Pedag\u00f3gico Do Curso Superior De Tecnologia Em Seguran\u00e7a P\u00fablica E Coordenador Do Observat\u00f3rio De Seguran\u00e7a P\u00fablica Da Universidade Municipal De S\u00e3o Caetano Do Sul, Tutor Da Rede De Ensino \u00c0 Dist\u00e2ncia Da Secretaria Nacional De Seguran\u00e7a P\u00fablica, Pesquisador Do Grupo De Pesquisa Em Seguran\u00e7a, Viol\u00eancia E Justi\u00e7a Da Ufabc E Membro Do Instituto Brasileiro De Ci\u00eancias Criminais.","sameAs":["https:\/\/www.editorajuspodivm.com.br\/authors\/page\/view\/id\/7986\/"],"url":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/author\/144456247350\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/24496","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/users\/273"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/comments?post=24496"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/24496\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24500,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/posts\/24496\/revisions\/24500"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/media\/24477"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/media?parent=24496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/categories?post=24496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/api\/wp\/v2\/tags?post=24496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}