{"id":24546,"date":"2026-09-23T15:00:00","date_gmt":"2026-09-23T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/?p=24546"},"modified":"2026-09-22T15:42:42","modified_gmt":"2026-09-22T18:42:42","slug":"o-que-a-criminologia-pode-aprender-com-a-paleontologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/2026\/09\/23\/o-que-a-criminologia-pode-aprender-com-a-paleontologia\/","title":{"rendered":"O que a criminologia pode aprender com a paleontologia?"},"content":{"rendered":"\n<p>Grande parte do conhecimento criminol\u00f3gico contempor\u00e2neo depende de registros administrativos produzidos pelas institui\u00e7\u00f5es do sistema de justi\u00e7a criminal. Quando examinamos a distribui\u00e7\u00e3o espacial dos roubos, a evolu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios, a concentra\u00e7\u00e3o de determinados delitos em \u00e1reas espec\u00edficas ou os efeitos de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica, \u00e9 bastante prov\u00e1vel que, em algum momento da pesquisa, estejamos trabalhando com informa\u00e7\u00f5es que tiveram origem em uma ocorr\u00eancia policial. Embora sejam conhecidas as limita\u00e7\u00f5es das estat\u00edsticas oficiais, especialmente aquelas relacionadas \u00e0 subnotifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 chamada cifra oculta da criminalidade, h\u00e1 uma quest\u00e3o anterior que nem sempre recebe a mesma aten\u00e7\u00e3o: depois que um fato chega ao conhecimento da pol\u00edcia e passa a integrar uma base administrativa, em que momento podemos considerar que aquele registro se tornou um dado est\u00e1vel?<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta orienta o artigo <strong><em>Formation Process of the Criminological Record<\/em><\/strong>, de P. Jeffrey Brantingham, publicado em setembro de 2026 na Justice Quarterly. O trabalho parte de uma constata\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica relativamente simples, mas que produz consequ\u00eancias importantes para a pesquisa criminol\u00f3gica: os bancos de dados utilizados pelos pesquisadores n\u00e3o surgem prontos quando os crimes acontecem, nem permanecem necessariamente inalterados depois que determinado evento ingressa no sistema. Entre o acontecimento concreto e a linha que posteriormente ser\u00e1 analisada em uma planilha existe um processo institucional durante o qual informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o incorporadas, corrigidas, reclassificadas ou suprimidas. Brantingham (2026) prop\u00f5e que esse processo deixe de ser tratado apenas como um problema de qualidade dos dados e passe a constituir, ele pr\u00f3prio, objeto de investiga\u00e7\u00e3o criminol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de redescobrir a cifra oculta. A criminologia sabe h\u00e1 muito tempo que os crimes conhecidos pela pol\u00edcia representam apenas uma parcela dos fatos efetivamente ocorridos e que essa rela\u00e7\u00e3o varia de acordo com a natureza da infra\u00e7\u00e3o, as caracter\u00edsticas das v\u00edtimas, a confian\u00e7a depositada nas institui\u00e7\u00f5es, a disponibilidade de canais de comunica\u00e7\u00e3o e uma s\u00e9rie de outros fatores. Tamb\u00e9m sabemos que os registros policiais n\u00e3o constituem representa\u00e7\u00f5es neutras da criminalidade, pois determinadas infra\u00e7\u00f5es dependem fortemente da atividade estatal para serem detectadas, enquanto outras chegam \u00e0 pol\u00edcia predominantemente pela iniciativa das v\u00edtimas. O argumento de Brantingham situa-se em momento posterior dessa cadeia. Seu interesse recai sobre aquilo que acontece depois que o evento j\u00e1 ingressou no registro administrativo e sobre as transforma\u00e7\u00f5es pelas quais esse registro ainda poder\u00e1 passar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para desenvolver o argumento, o autor estabelece uma compara\u00e7\u00e3o particularmente interessante com a paleontologia. O paleont\u00f3logo n\u00e3o observa diretamente os organismos e os ecossistemas que pretende compreender, mas vest\u00edgios produzidos por processos ocorridos durante um per\u00edodo extraordinariamente longo. O conjunto de f\u00f3sseis dispon\u00edveis n\u00e3o corresponde, evidentemente, ao conjunto dos seres que efetivamente viveram em determinado ambiente, pois entre a exist\u00eancia do organismo e sua descoberta ocorreram processos de decomposi\u00e7\u00e3o, dispers\u00e3o, soterramento, preserva\u00e7\u00e3o e fossiliza\u00e7\u00e3o que determinaram quais vest\u00edgios chegariam ao presente. Por isso, a paleontologia n\u00e3o estuda apenas os f\u00f3sseis, mas tamb\u00e9m os processos respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio registro f\u00f3ssil. Conhecer esses mecanismos \u00e9 indispens\u00e1vel para compreender o que o registro permite inferir sobre a realidade que lhe deu origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Brantingham (2026) sustenta que a criminologia enfrenta problema epistemol\u00f3gico semelhante. O crime \u00e9 um acontecimento situado no tempo e no espa\u00e7o, enquanto aquilo que o pesquisador geralmente encontra \u00e9 o registro institucional posteriormente produzido a seu respeito. Entre esses dois momentos podem existir a percep\u00e7\u00e3o do fato pela v\u00edtima ou por terceiros, a decis\u00e3o de comunic\u00e1-lo, a interven\u00e7\u00e3o policial, a narrativa dos envolvidos, a tradu\u00e7\u00e3o dessa narrativa para categorias administrativas e jur\u00eddicas, o preenchimento dos campos dispon\u00edveis no sistema e, posteriormente, a incorpora\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es obtidas durante a investiga\u00e7\u00e3o. O registro criminal utilizado pelo pesquisador \u00e9, portanto, resultado de um processo de forma\u00e7\u00e3o, e conhecer esse processo \u00e9 relevante para estabelecer aquilo que efetivamente podemos inferir a partir dos dados dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9rito emp\u00edrico do artigo est\u00e1 na maneira encontrada para observar algo que normalmente permanece invis\u00edvel ao pesquisador. Brantingham utilizou a base p\u00fablica de crimes do Chicago Police Department, que recebe atualiza\u00e7\u00f5es frequentes, e, em vez de realizar uma \u00fanica extra\u00e7\u00e3o dos dados, preservou sucessivas vers\u00f5es da base entre 20 de fevereiro de 2024 e 7 de janeiro de 2025. Esse procedimento permitiu acompanhar os mesmos eventos ao longo do tempo e verificar quando ingressavam na base p\u00fablica, quando informa\u00e7\u00f5es eram modificadas e em que momento os registros adquiriam maior estabilidade. Ao final do per\u00edodo analisado, foram acumuladas aproximadamente 45,5 milh\u00f5es de observa\u00e7\u00f5es referentes a 230.410 eventos criminais \u00fanicos (Brantingham, 2026).<\/p>\n\n\n\n<p>A dimens\u00e3o desse conjunto decorre justamente do desenho da pesquisa. Um mesmo evento podia aparecer em numerosas vers\u00f5es sucessivas, de modo que o objeto de an\u00e1lise n\u00e3o era apenas a ocorr\u00eancia criminal, mas a trajet\u00f3ria do registro produzido sobre ela. Essa estrat\u00e9gia permitiu observar aquilo que uma extra\u00e7\u00e3o convencional ocultaria, pois o pesquisador que acessasse a base em determinada data encontraria apenas o estado do registro naquele momento e dificilmente saberia quantas altera\u00e7\u00f5es haviam ocorrido anteriormente ou quantas ainda ocorreriam posteriormente. Nesse sentido, o artigo introduz uma dimens\u00e3o temporal importante na discuss\u00e3o sobre qualidade dos dados criminais: n\u00e3o basta perguntar se determinada informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta ou completa, sendo tamb\u00e9m necess\u00e1rio considerar quando ela foi obtida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados mostram que a forma\u00e7\u00e3o do registro n\u00e3o ocorre de maneira instant\u00e2nea. Eventos s\u00e3o acrescentados \u00e0 base, alguns deixam de aparecer e determinados atributos sofrem altera\u00e7\u00f5es durante o per\u00edodo posterior ao primeiro registro. Mais importante do que a mera exist\u00eancia dessas modifica\u00e7\u00f5es \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que elas apresentam regularidades e que sua intensidade varia conforme o tempo transcorrido e as caracter\u00edsticas dos eventos. Brantingham identifica tend\u00eancia progressiva de estabiliza\u00e7\u00e3o, embora o comportamento n\u00e3o seja uniforme entre as diferentes categorias examinadas, e observa uma situa\u00e7\u00e3o peculiar em rela\u00e7\u00e3o aos homic\u00eddios. No conjunto, os registros analisados tornam-se substancialmente mais est\u00e1veis \u00e0 medida que envelhecem, o que significa que informa\u00e7\u00f5es relativas a eventos recentes devem ser interpretadas considerando que o processo de forma\u00e7\u00e3o do registro pode ainda n\u00e3o ter terminado (Brantingham, 2026).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o possui uma consequ\u00eancia metodol\u00f3gica que merece maior aten\u00e7\u00e3o nas pesquisas que utilizam registros administrativos. A data de extra\u00e7\u00e3o de uma base n\u00e3o constitui apenas informa\u00e7\u00e3o destinada a permitir a reprodu\u00e7\u00e3o do estudo, mas pode interferir substantivamente no conte\u00fado observado. Duas pesquisas que consultem a mesma fonte em momentos diferentes podem trabalhar com vers\u00f5es distintas dos mesmos eventos, sobretudo quando lidam com ocorr\u00eancias recentes. Dependendo da magnitude e da natureza das altera\u00e7\u00f5es, essa diferen\u00e7a pode repercutir na classifica\u00e7\u00e3o das infra\u00e7\u00f5es, em sua distribui\u00e7\u00e3o temporal ou espacial e, consequentemente, nos resultados das an\u00e1lises realizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema torna-se ainda mais relevante quando as estat\u00edsticas oficiais s\u00e3o empregadas para avaliar mudan\u00e7as na criminalidade ou os efeitos de determinada interven\u00e7\u00e3o. Uma eleva\u00e7\u00e3o no n\u00famero de registros pode decorrer do aumento efetivo dos delitos, mas tamb\u00e9m pode estar relacionada a mudan\u00e7as na propens\u00e3o das v\u00edtimas a procurar a pol\u00edcia, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novos canais de comunica\u00e7\u00e3o, \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 altera\u00e7\u00e3o de procedimentos administrativos ou \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios utilizados para classificar os fatos. Da mesma forma, a redu\u00e7\u00e3o dos registros n\u00e3o autoriza, isoladamente, a conclus\u00e3o de que houve diminui\u00e7\u00e3o equivalente dos comportamentos criminosos. Nada disso significa negar a utilidade das estat\u00edsticas policiais, mas reconhecer que sua interpreta\u00e7\u00e3o depende do conhecimento das condi\u00e7\u00f5es institucionais sob as quais foram produzidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, a proposta de Brantingham permite avan\u00e7ar al\u00e9m da conhecida discuss\u00e3o entre criminalidade real e criminalidade registrada. Se diferentes etapas do processo de forma\u00e7\u00e3o deixam marcas identific\u00e1veis nos dados e se essas marcas apresentam padr\u00f5es regulares, torna-se poss\u00edvel estud\u00e1-las empiricamente. Em outras palavras, a produ\u00e7\u00e3o institucional da informa\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o precisa permanecer como uma esp\u00e9cie de caixa-preta localizada entre o acontecimento e a base utilizada pelo pesquisador. Podemos investigar quanto tempo determinados registros levam para se estabilizar, quais informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o alteradas com maior frequ\u00eancia, quais categorias criminais apresentam maior instabilidade, se determinados procedimentos administrativos aumentam ou reduzem essa instabilidade e em que medida mudan\u00e7as nos sistemas de informa\u00e7\u00e3o interferem nas s\u00e9ries hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o possui evidente interesse para a criminologia brasileira. No Brasil, parcela consider\u00e1vel da pesquisa emp\u00edrica sobre viol\u00eancia e criminalidade depende de registros produzidos pelas pol\u00edcias e por outras institui\u00e7\u00f5es do sistema de justi\u00e7a criminal. Esses dados s\u00e3o indispens\u00e1veis e, em diversas \u00e1reas, constituem a melhor informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. Entretanto, ainda conhecemos pouco, de maneira sistem\u00e1tica, sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o de muitas dessas bases. Sabemos que existe subnotifica\u00e7\u00e3o e reconhecemos diferen\u00e7as importantes entre crimes que dependem da iniciativa da v\u00edtima para chegar ao conhecimento estatal e aqueles cuja identifica\u00e7\u00e3o decorre principalmente da atividade policial, mas isso n\u00e3o esgota o problema. Depois que a ocorr\u00eancia \u00e9 registrada, ainda existe uma trajet\u00f3ria administrativa que merece ser estudada.<\/p>\n\n\n\n<p>Um boletim de ocorr\u00eancia, por exemplo, costuma aparecer na pesquisa quantitativa como unidade elementar de informa\u00e7\u00e3o, embora represente, na realidade, determinado est\u00e1gio do conhecimento institucional sobre um acontecimento. A classifica\u00e7\u00e3o inicial decorre das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis naquele momento e pode ser posteriormente confrontada com novos elementos produzidos pela investiga\u00e7\u00e3o. O que se sabia nas primeiras horas n\u00e3o necessariamente corresponde ao que ser\u00e1 conhecido depois de oitivas, per\u00edcias, an\u00e1lise de imagens, recupera\u00e7\u00e3o de objetos ou identifica\u00e7\u00e3o de suspeitos. Quando essas modifica\u00e7\u00f5es repercutem nas bases utilizadas para produ\u00e7\u00e3o estat\u00edstica, o pesquisador precisa compreender minimamente essa din\u00e2mica para saber exatamente com que tipo de informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 trabalhando.<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva sugerida pelo artigo permite formular uma agenda de pesquisa bastante concreta para o contexto brasileiro. Seria poss\u00edvel acompanhar longitudinalmente amostras de registros policiais para verificar quais campos sofrem altera\u00e7\u00f5es depois do registro inicial, medir o intervalo necess\u00e1rio para sua estabiliza\u00e7\u00e3o, comparar esse comportamento entre diferentes modalidades criminais e examinar se mudan\u00e7as de classifica\u00e7\u00e3o produzem efeitos relevantes nas estat\u00edsticas agregadas. Tamb\u00e9m seria importante verificar se uma base extra\u00edda imediatamente ap\u00f3s determinado per\u00edodo de refer\u00eancia apresenta diferen\u00e7as substantivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma base consultada meses depois. Essas perguntas s\u00e3o particularmente relevantes porque boa parte das an\u00e1lises conjunturais sobre seguran\u00e7a p\u00fablica trabalha justamente com dados muito recentes, isto \u00e9, com registros potencialmente mais pr\u00f3ximos do per\u00edodo em que, segundo a hip\u00f3tese de Brantingham, ainda podem estar ocorrendo modifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, ainda, uma consequ\u00eancia contempor\u00e2nea que amplia consideravelmente a import\u00e2ncia do problema. Bases administrativas de seguran\u00e7a p\u00fablica j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o utilizadas apenas para produzir tabelas, mapas ou pesquisas acad\u00eamicas. A expans\u00e3o das t\u00e9cnicas de an\u00e1lise de grandes volumes de dados e da intelig\u00eancia artificial permite que essas informa\u00e7\u00f5es sejam utilizadas para identificar padr\u00f5es, classificar riscos e orientar decis\u00f5es operacionais. Nessas circunst\u00e2ncias, compreender a forma\u00e7\u00e3o do registro deixa de ser apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica do pesquisador e passa a integrar a discuss\u00e3o sobre os limites dos pr\u00f3prios sistemas anal\u00edticos constru\u00eddos a partir dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Modelos computacionais aprendem rela\u00e7\u00f5es existentes nos dados utilizados em seu desenvolvimento. Se esses dados incorporam padr\u00f5es decorrentes n\u00e3o apenas da incid\u00eancia criminal, mas tamb\u00e9m das formas de policiamento, das diferen\u00e7as de notifica\u00e7\u00e3o, das prioridades institucionais e dos procedimentos de classifica\u00e7\u00e3o, os modelos podem reproduzir essas caracter\u00edsticas sem distinguir automaticamente sua origem. Um territ\u00f3rio pode apresentar maior n\u00famero de determinados registros porque concentra maior quantidade de delitos, porque recebe fiscaliza\u00e7\u00e3o mais intensa ou porque ambos os fen\u00f4menos ocorrem simultaneamente. O algoritmo pode identificar com grande precis\u00e3o a associa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica existente na base, mas a interpreta\u00e7\u00e3o criminol\u00f3gica dessa associa\u00e7\u00e3o continua dependendo da compreens\u00e3o de como os dados foram produzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Brantingham acrescenta a esse debate uma vari\u00e1vel que costuma receber menor aten\u00e7\u00e3o: a pr\u00f3pria maturidade temporal do registro. Se as informa\u00e7\u00f5es sobre determinados eventos continuam sendo modificadas durante algum per\u00edodo, bases constitu\u00eddas predominantemente por ocorr\u00eancias recentes podem apresentar propriedades diferentes das vers\u00f5es posteriormente consolidadas. Para aplica\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia artificial, an\u00e1lise preditiva ou avalia\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de pol\u00edticas p\u00fablicas, esse aspecto n\u00e3o \u00e9 trivial, pois significa que a qualidade do conjunto de dados pode depender tamb\u00e9m da dist\u00e2ncia temporal existente entre os acontecimentos e o momento em que as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o utilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o mais interessante, contudo, n\u00e3o est\u00e1 apenas em recomendar cautela no uso das estat\u00edsticas. Esse tipo de advert\u00eancia seria pouco original. O que Brantingham prop\u00f5e \u00e9 algo mais promissor: estudar sistematicamente os mecanismos respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o do registro criminol\u00f3gico e verificar se eles apresentam regularidades suficientemente consistentes para sustentar explica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. A analogia com o registro f\u00f3ssil adquire aqui seu sentido mais profundo. A paleontologia n\u00e3o concluiu que os f\u00f3sseis eram fontes inadequadas porque resultavam de processos seletivos de preserva\u00e7\u00e3o; ao contr\u00e1rio, desenvolveu instrumentos te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos para compreender esses processos e, com isso, aperfei\u00e7oou as infer\u00eancias realizadas a partir dos vest\u00edgios dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>A criminologia pode seguir caminho semelhante. Reconhecer que estat\u00edsticas policiais s\u00e3o produzidas institucionalmente n\u00e3o implica relativizar a exist\u00eancia do crime, tampouco abandonar registros administrativos como fonte de conhecimento. Significa incorporar ao objeto de investiga\u00e7\u00e3o os mecanismos pelos quais acontecimentos concretos s\u00e3o convertidos em informa\u00e7\u00f5es classific\u00e1veis, armazen\u00e1veis e analis\u00e1veis. Quanto melhor compreendermos esses mecanismos, melhores ser\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para distinguir altera\u00e7\u00f5es na criminalidade de altera\u00e7\u00f5es na forma como ela \u00e9 conhecida e registrada pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez essa seja a principal contribui\u00e7\u00e3o do artigo para al\u00e9m do caso de Chicago. Durante muito tempo, a criminologia concentrou esfor\u00e7os em explicar a distribui\u00e7\u00e3o dos crimes, as caracter\u00edsticas dos autores e das v\u00edtimas, as oportunidades que favorecem determinados comportamentos e as respostas institucionais produzidas diante deles. Todas essas quest\u00f5es permanecem fundamentais. Entretanto, quando parte relevante dessas explica\u00e7\u00f5es depende de registros administrativos, existe uma etapa anterior que n\u00e3o pode ser simplesmente pressuposta: \u00e9 necess\u00e1rio compreender como o acontecimento que pretendemos explicar adquiriu a forma do dado que utilizamos para explic\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest\u00e3o se torna ainda mais importante em um per\u00edodo no qual a disponibilidade de grandes bases de dados pode produzir a impress\u00e3o de que o principal desafio da criminologia quantitativa consiste em desenvolver t\u00e9cnicas cada vez mais sofisticadas para analis\u00e1-las. O artigo de Brantingham sugere uma cautela diferente. Antes de aumentar a complexidade dos modelos, conv\u00e9m conhecer com maior profundidade a mat\u00e9ria-prima sobre a qual eles operam. Uma base com milh\u00f5es de registros permite c\u00e1lculos extremamente precisos, mas o aumento da capacidade computacional n\u00e3o resolve, por si s\u00f3, problemas relacionados ao processo pelo qual esses registros foram produzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, talvez a pergunta metodol\u00f3gica mais elementar continue sendo uma das mais importantes. Quando encontramos uma linha em uma base de dados criminais, n\u00e3o estamos diante do pr\u00f3prio acontecimento, mas de um vest\u00edgio institucional produzido a partir dele. Saber quem produziu esse vest\u00edgio, em quais circunst\u00e2ncias, segundo quais categorias, quanto tempo depois do fato e quais transforma\u00e7\u00f5es ele sofreu at\u00e9 chegar ao pesquisador n\u00e3o constitui preocupa\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria. Trata-se de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para estabelecer aquilo que o dado efetivamente permite afirmar sobre a criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Brantingham (2026) oferece evid\u00eancias de que esse processo possui estrutura, dura\u00e7\u00e3o e regularidades pr\u00f3prias. Se resultados semelhantes forem encontrados em outras cidades, institui\u00e7\u00f5es e sistemas de informa\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o do registro criminol\u00f3gico poder\u00e1 deixar de ocupar apenas as notas metodol\u00f3gicas dos estudos emp\u00edricos e assumir lugar mais relevante na pr\u00f3pria teoria criminol\u00f3gica. Para uma disciplina que depende crescentemente de grandes bases administrativas e que come\u00e7a a incorporar t\u00e9cnicas cada vez mais complexas de intelig\u00eancia artificial, compreender como o crime se transforma em dado talvez seja t\u00e3o importante quanto aprender a extrair mais informa\u00e7\u00f5es dos dados que j\u00e1 possu\u00edmos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BRANTINGHAM, P. Jeffrey. <strong><em>Formation process of the criminological record<\/em><\/strong>. Justice Quarterly, 2026. Publicado on-line em 11 set. 2026. DOI: 10.1080\/07418825.2026.2728316.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grande parte do conhecimento criminol\u00f3gico contempor\u00e2neo depende de registros administrativos produzidos pelas institui\u00e7\u00f5es do sistema de justi\u00e7a criminal. 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